Jardins de Rochas

20 20UTC Fevereiro 20UTC 2010 ás 22:38 | Na categoria Aquascaping | Publicar um comentário
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Os jardins japoneses são bem conhecidos pelo seu design sofisticado e ao mesmo tempo minimalista, o que confere a atmosfera de acalmia para a qual foram desenhados. Os mais experientes jardineiros japoneses explicam que uma composição bem sucedida resulta da aplicação de princípios de design complexos e intencionais antecipando o efeito visual pretendido.

O modo como esses jardins atingem os efeitos expressivos e artísticos é uma questão que pode ser muito útil na criação de arranjos de pedras como no estilo Iwagumi, mas também para qualquer aquário de estilo nature contendo conjuntos de rochas.

ZEN

Figura 1 - Exemplo de jardim de rochas japonês.

A origem dos princípios para a criação de jardins de rochas pode ser determinada em duas publicações, sendo a mais antiga de origem medieval mas traduzido nos anos 70 por Shimoyama. Esta primeira publicação designada Sakuteiki era composta por dois pergaminhos manuscritos sem ilustrações, mas existe actualmente com várias traduções em inglês e pretende ser um livro de Ishi wo taten koto – a arte de dispor rochas. A outra publicação data do período Muromachi (1333-1573) e é um artigo ilustrado onde estão presentes descrições gramaticais e esquemáticas principalmente relativas ao hardscape dos jardins rochosos, sendo a autoria atribuída a Shingen (1466).

Destes livros é possível extrair a essência da arte da disposição de rochas num jardim zen e que se sobrepõem com as indicações mais frequentes para a disposição de rochas num aquário estilo Iwagumi. Algumas das indicações contidas estão enumeradas de seguida:

  • As rochas formam o esqueleto da composição do jardim.
  • Rochas triangulares e conjuntos de rochas são o preferido. Estas unidades ou conjuntos também são designadas por tríades e expressam a terra, o homem e o divino através de respectivamente linhas horizontais, diagonais e verticais.
  • Os grupos de rochas devem apresentar-se preferencialmente em número impar, sendo o número total de conjuntos um número impar.
  • A maior rocha de cada grupo deve ser colocada em primeiro lugar sendo então as mais pequenas colocadas de modo a que fiquem em concordância com a rocha principal de cada grupo.
  • A composição pode ser suavizada através de várias técnicas de adição de rochas. Por exemplo as ‘pedras base’ são tipicamente colocadas por baixo da rocha dominante de um grupo, de modo a estender a sua base e fazer com que pareça ser mais triangular. As Sute ishi, que quer literalmente dizer pedras de atirar, são pedras baixas e imperceptíveis, que aparentam ter sido dispersas de um modo aleatório. Essas técnicas são usadas de modo a tornar a composição mais natural.
  • Dispor as pedras como as escamas de um peixe (também conhecida por técnica do biombo), cria a sensação de uma paisagem montanhosa, vasta e profunda.
  • Sugestões de elementos paisagísticos como rios nunca devem ser direitos, mas curvados de modo a aparentar prolongar-se até ao infinito.
  • A assimetria deve ser considerada em todos os aspectos do design.
  • Os elementos de design como rochas, musgo e areia devem ter texturas uniformes, sem coloração brilhante ou texturas excessivamente impressionantes.

A psicologia pode ajudar e desvendar os efeitos obtidos nos jardins japoneses. Tonder e Lyons (2005) desenvolveram um trabalho completo e interessante acerca da percepção visual no design de jardins de rochas japoneses. Eles consideram que os dois processos fundamentalmente associados com a percepção visual humana são a segmentação e o agrupamento perceptual. A segmentação é um processo de divisão de uma cena visual nas partes mais significativas, actuando numa etapa precoce da análise de uma cena visual, enquanto o agrupamento perceptual é um processo de agrupamento das várias partes em conjuntos significativos que passam a ser apercebidos como um todo.

Também consideram as leis gestaltianas, ou leis da forma, utilizadas em diversas áreas do design artístico, como tendo um papel fundamental no modo como os jardineiros japoneses conseguem obter o efeito pretendido nos seus jardins. Estas “leis” baseiam-se em cinco princípios base que passo a listar e ilustrar:

Continuidade: os elementos aparentam estar agrupados quando se apresentam dispostos linearmente ou com uma determinada orientação. Uma fila de pontos pode ser apercebida como uma linha simples.

Semelhança: segundo a nossa percepção, os elementos são agrupados em conjunto com aqueles que lhes são semelhantes (Schamber, 1986).

Pregnância ou Prägnanz: os observadores apercebem-se dos objectos do modo mais simples em que possam ser agrupados de um modo inconsciente (Chang, 2002).

Proximidade: Os elementos são organizados segundo a proximidade. Os elementos mais próximos numa região tendem a ser apercebidos como um grupo (Ehrenstein 2004).

Fechamento: a percepção humana tem a tendência para completar elementos inacabados ou parcialmente obscuros (Ehrenstein, 2004). O triângulo de Kanizsa (ilustração em baixo) é um dos exemplos mais reconhecidos desta lei.

No entanto, todos estes princípios podem ser simplificados numa única frase: o todo é diferente da soma das partes. Esta ideia é designada supersoma e é em muitas fontes representada como: A+B não é igual a (A+B), mas sim um terceiro elemento C, que possui características próprias.

Assim, os arranjos rochosos característicos dos jardins japoneses baseiam-se em grande parte na utilização dos princípios percepcionais através dos quais o nosso cérebro consegue transformar as imagens captadas pela visão em representações tridimensionais. Recorrendo voluntária ou involuntariamente aos princípios gestaltianos o jardineiro japonês consegue dispor as rochas de modo a obter uma formação harmoniosa e agradável à vista, sendo importantíssima a importação destas técnicas para  o aquascaping de modo a melhorar a nossa arte rochosa.

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